Produtores de vinho gaúchos se unem para ganhar mercado
 

 

Produtores de vinho gaúchos se unem para ganhar mercado
De olho no mercado consumidor do Sudeste, a Associação Vinhos da Campanha Gaúcha

 

O vinho brasileiro tem uma história longa, complicada, mas fascinante. Desde que os jesuítas plantaram em São Paulo as primeiras vinhas destinadas à produção do vinho de missa, ainda no século XVI, até hoje, o caminho foi tortuoso, difícil e cheio de surpresas.
 
Hoje, 11 produtores independentes se uniram para formar a Associação Vinhos da Campanha Gaúcha e iniciar uma ação de divulgação de sua imagem. Um primeiro passo foi fechar um acordo para garantir que seus vinhos cheguem ao mercado consumidor do sudeste, o maior do Brasil.

Depois, querem divulgar a imagem dos produtos e produtores da região, que é pouco conhecida em comparação, por exemplo, com os da serra gaúcha. Para os quatro dias de feriado de Corpus Christie, já foi criado um tour, que inclui visitas às cidades de Candiota, Dom Pedrito e Pinheiro Machado.
 

Em São Paulo, 50 rótulos ganharam um espaço especial dentro do Empório Frei Caneca, no shopping de mesmo nome. Vinhos desde R$ 35 até R$ 105 estarão disponíveis, formando um painel representativo da produção da região. Antes, eles podiam ser encontrados indivudualmente em diferentes distribuidoras, mas é a primeira vez que estão reunidos num lugar só.

E prepare-se para ir além do óbvio. Claro que há excelentes vinhos feitos com uvas mais tradicionais, como os Campaña Cabernet Sauvignon (R$ 75) e Campaña Chardonnay (R$ 78) da Bodega Sossego. Ou o corte bordalês (mescla de uvas típicas da região de Bordeaux, na França) do Paralelo 31, safra 2011 (R$ 90), da Bueno Wines, propriedade do narrador esportivo Galvão Bueno.

Mas há grandes achados, por exemplo, os que usam a uva gewurztraminer, bem mais rara no Brasil. Confira:
 
Cordilheira de Sant'ana Reserva Gewurztraminer 2012(R$ 49) já é um clássico entre os conhecedores de vinho brasileiro, um branco elegante que se mantém em alto nível a cada safra.

Espumante Guatambu Rosé Brut (R$  62). O premiado (e curioso) espumante da Estancia Guatambu, usa 80% de gewurztraminer e 20% de pinot noir, uma mistura raríssima, com certeza única, no Brasil.

Dunamis Pinot Grigio 2014 (R$ 51), outro branco interessante, leve e descomplicado, como pretende a filosofia de seus produtores, é feito com uma uva menos comum.

Terroir de Rosé 2014 (R$ 54,90) da Vinhetica, corte da famosa  uva merlot com a menos conhecida teroldego, ideia do jovem agrônomo e viticultor francês Gaspar Desurmont, revela-se ideal para acompanhar a culinária brasileira. É um vinho orgânico, sedutor, com aromas cítricos.

 Para quem quer algo mais tradicional, os varietais de tannat, cabernet sauvignon e merlot da Batalha Vinhas e Vinhos cumprem bem seu papel, numa faixa de preço entre R$ 55 e R$ 75.
 
Cabernet Sauvignon Cordilheira de Sant'ana 2005 (R$ 53) Se for necessário escolher o rótulo com a melhor relação custo-benefício da lista, ele é a aposta certa. O casal de enólogos proprietários, Gladistão Omizzolo e Rosana Wagner, quer perpetrar vinhos com um talhe clássico, que evoluam em sua plenitude e tragam mais do que fruta e madeira.

Não é comum encontrar vinhos brasileiros com dez anos de guarda no mercado. Comum é ouvir que o vinho brasileiro precisa provar envelhecer bem. Pois o fato é que este cabernet está aqui para fornecer as provas. Esta safra 2005 se mantém vivaz e ganha a elegância digna de bons vinhos do europeus. Mas traz um toque de leveza e maciez distante dos seus concorrentes diretos, chilenos e argentinos.

A Campanha Gaúcha é um tesouro a ser descoberto, a mais promissora possibilidade dos vinhos finos brasileiros. Situada em alto patamar, tem ainda um potencial enorme de crescimento. 
 CIDADE DE CANDIORA, NA CAMPANHA GAÚCHA (FOTO: SILVIA TONON)
Tour Dia do Vinho
 
A viagem parte e regressa a Porto Alegre, organizado e conduzido pela enóloga Maria Amélia Duarte Flores, entre os dias 4 e 7  de junho. O passeio e degustação pelas vinícolas custa R$ 1.035  (inclui transporte, alimentação, bebidas e acompanhamento de enóloga) + hospedagem (conforme preferir o participante).



História
Por muito tempo, o pensamento dominante culpou a geografia. Mas os verdadeiros desafios para os produtores de vinhos gaúchos sempre foram mais políticos e históricos. A começar pela proibição de produção local, mantida pela metrópole portuguesa por mais de três séculos. Retomada por colonos italianos na região da Serra Gaúcha, em fins do século XIX, ela se limitava ao consumo caseiro.
 
Salvo um surto empreendedor entre 1910 e 1930, quando surgiram a Peterlongo, a Cooperativa Aurora e a Salton, entre outras, somente no final dos anos 1960 e começo dos 1970, com a chegada de técnicos e capital de empresas multinacionais, como Martini & Rossi, Cinzano, Moët & Chandon, Heublein e Almadén, o vinho brasileiro atingiu um patamar de profissionalização compatível com suas possibilidades. Houve, então, uma revolução técnica nos vinhedos e na vinificação. Mas o inimigo da qualidade nesta época era o protecionismo. Sem concorrência, o produto nacional evoluía muito lentamente. Finalmente, nos anos 1990, o mercado se abriu.
 
Ainda pagamos impostos pornográficos pelo vinho importado. Mas hoje a oferta é imensa. Com isso, o produtor brasileiro foi forçado a investir e a se modernizar. A Serra Gaúcha, cuja evolução é incontestável, ganhou concorrentes. Regiões como as frias terras de altitude de Santa Catarina ou mesmo o quente vale do Rio São Francisco trazem a cada ano alguma surpresa positiva.
 
A grande aposta do apreciador de vinhos, contudo, vem do paralelo 31, na divisa com o Uruguai: a Campanha Gaúcha. Na mesma latitude de prestigiadas regiões vitivinícolas da Australia, África do Sul, Argentina e Chile, a Campanha cobre uma faixa de aproximadamente 200 km na fronteira com o Uruguai. 
 
A história começa com a Almadén, que nos anos 1970 enviou técnicos da Universidade de Davis-Califórnia, uma das mais importantes do mundo, com o objetivo de descobrir o terroir ideal para seu  projeto. Depois de extensos estudos de clima e solo, eles escolheram, de maneira pioneira e surpreendente, a Campanha Gaúcha.
 
A tradição da região é agropecuária. Grandes propriedades com gado bovino e ovino, plantações extensas de arroz, colinas suaves e um enorme vazio demográfico. Muito diferente das pequenas propriedades familiares da Serra Gaúcha.
 
Quando estes grandes proprietários e outros visionários começaram a produzir por lá, no início dos anos 1990, eles o fizeram com tecnologia de ponta e intenções comerciais claras. Nada do romantismo e amadorismo dos colonos pioneiros.
 
Os vinhedos são em espaldeira, o método de plantio mais indicado para vinhos de qualidade, e  em geral o cultivo é mecanizado. A temperatura, alta no verão, chega a menos de zero no inverno, amplitude térmica que tende a ser benéfica para certos aspectos da qualidade da uva.
 
O resultado foi rápido. A região responde hoje por 25% dos vinhos finos nacionais, a segunda fatia do País. Apesar dos ótimos resultados, dos prêmios conquistados e da presença de gigantes como a Miolo e a Salton, a Campanha ainda não é plenamente reconhecida como uma marca forte e de qualidade pelo consumidor. 
 
Referência:http://gq.globo.com/Prazeres/Bebidas/noticia/2015/05/produtores-de-vinho-gauchos-se-unem-para-ganhar-mercado.html 




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Vinhos da Campanha
Site:www.vinhosdacapanha.com.br